As Genis da Atualidade
- 16 de out. de 2017
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Apesar dos avanços conquistados, a comunidade transexual do Brasil ainda sofre com o preconceito da sociedade
“Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um. Maldita Geni!”
Geni e o Zepelim
Chico Buarque, 1979
Apesar de ter sido escrita na década de 70, a letra da música de Chico Buarque ainda reflete o preconceito contra os transexuais da atualidade. De acordo com relatório “Quem a homofobia matou hoje?”, do Grupo Gay da Bahia, apenas em 2016 foram 343 LGBT assassinados, o que gera uma média de uma morte a cada 25 horas. Além disso, o relatório alerta que 2017 começa igualmente sangrento. Apenas em janeiro foram documentados 23 casos. E, no país que mais se assassina pessoas travestis e transexuais, encontra-se novas pedras para serem atiradas na comunidade trans todos os dias

A construção de conceitos

“Quando eu tinha por volta de sete anos fui em uma sorveteria, e já nessa idade eu tinha uma aparência muito diferente. Me lembro que estava usando uma camisetinha da Xuxa e o atendente perguntou se eu era um menino ou uma menina, eu não fiquei impressionada com essa pergunta, mas sim com o que eu respondi pra ele. Como estava sozinha, falei com toda certeza que era uma menina. Depois de muitos anos isso voltou à minha mente e eu percebi que já era uma mulher naquela época”, relato de Michelly Matorelli, 35 anos, mulher trans.
Ser menino ou menina é questão complexa. A construção social atribuída ao sexo no nascimento molda sujeitos. Essa separação é o que classifica socialmente homens e mulheres, orientando seus papéis de gênero. O problema que mulheres como a Michelly enfrentam está justamente na atribuição de gênero de acordo com o sexo biológico, quando na realidade ninguém nasce com um gênero, mas sim com o sexo. Assim, ter um pênis não diz que essa pessoa se identifica como homem (o mesmo serve para quem nasce com uma vagina). As pessoas que se classificam dessa forma são denominadas de transgêneros, ou seja, aquelas que não se identificam com o sexo atribuído ao nascimento e procuram alinhar sua forma corporal à imagem psicológica que possuem de si.
O termo transgênero serve como um “guarda-chuva” que abrange as pessoas que transitam entre os gêneros, como as travestis, transexuais e andrógenos. As definições que se encaixam na terminologia gênero são inúmeras e espelham a pluralidade da nossa sociedade, o que vai contar realmente é a forma como os indivíduos se expressam.

Dessa forma, meninas como Michelly, que cresceram sendo construídas para possuir as características masculinas devido ao seu sexo, mas que sempre se identificaram com o gênero feminino, são denominadas de mulheres trans, da mesma maneira que um homem transexual seria aquele cujos aspectos ao nascer foram femininos, mas ele sempre se identificou com o masculino.
Das políticas públicas à realidade em Belém

A realidade da maioria dos transexuais no Brasil é cercada de discriminação e agressão por parte da sociedade. De acordo com Rafael Carmo, 24 anos, homem trans atuante na ONG Rede Paraense de Pessoas Trans (RPPT), “ser trans é sinônimo de resistência. No país que mais mata essa comunidade, estamos sujeitos a agressões em qualquer momento na rua, nunca sabemos quando vamos voltar pra casa. A estimativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anos, então a gente anda sempre com medo”.
O cotidiano de pessoas como o Rafael é bem parecido com o da Geni, da música Geni e o Zepelim, de Chico Buaque, dos anos 70, expostos a marginalização de uma comunidade que parece não evoluir.
Apesar disso, o Pará possui pioneirismo nas políticas de defesa e auxílio aos transexuais. O Gerente da Livre Orientação Sexual da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SEJUDH) do Pará, Beto Paes, informou que “Nós temos desde 2010 um decreto estadual do reconhecimento do nome social de travestis e transexuais. Posteriormente a isso, em 2013 ocorreu instituição no Estado um documento oficial para o reconhecimento dessa identidade, denominado de RIS (Registro de Identificação Social). Então, no âmbito do reconhecimento das identidades, o Pará deu um avanço imensurável, já que seu documento é oficial, vinculado à Secretaria de Segurança Pública do Estado, e, portanto, faz parte do universo trans e a sociedade tem que os reconhecer a partir desse documento”. O RIS significa uma espécie de RG social para pessoas trans, com isso eles poderão transitar livremente pelo Estado sem precisar levar dois documentos (um com o nome social e o outro com o civil), garantindo a inscrição de pessoas travestis e transexuais em escolas, concursos, universidades e vagas de emprego com seu nome social, sendo uma medida muito importante para a superação da transfobia, já que reafirma a cidadania dessas pessoas.

Para além disso, Beto Paes também fala que “O Pará possui, desde 2015, a instituição do ambulatório do processo transexualizador, que garante saúde de qualidade para pessoas trans que estão fazendo esse processo. Nós temos uma equipe multifuncional (com psicólogos, endocrinologistas, fonoaudiólogos, enfermeiros, terapeutas), para que essas pessoas possam ser acolhidas no ambiente da saúde e que façam seu processo de transição, de hormonioterapia, com o acompanhamento psicossocial adequado, sem que isso gera a ela outros problemas de saúde”. A etapa transexualizadora se define como a adequação do corpo biológico com à identidade de gênero, envolvendo desde o acompanhamento clínico e psicológico pré e pós cirurgia até a hormonioterapia, sendo um processo garantido no SUS desde 2008. Tal procedimento, segundo Beto, é essencial para a afirmação da identidade trans, pois significa a retirada de tudo aquilo que, para eles, os descaracteriza como seres humanos.
Para o Rafael Carmo tais políticas de reafirmação da cidadania trans são extremamente relevantes, mas ainda tem muito que ser feito, “algumas dessas políticas são muito prejudicadas pela má divulgação nos espaços, as pessoas ainda desconhecem a existência delas, não sabem que existe uma lei que ampara as pessoas trans”.
Além disso, a RPPT é uma das várias ONGs que atuam diariamente pela visibilidade social trans, promovendo encontros e debates em torno das questões que rodeiam esse mundo. “A importância da ONG é essa, levar informações para as pessoas trans dos seus direitos, acolher essas pessoas e orienta-las para que possam utilizar os serviços que são garantidos para nós. Também fazemos a interlocução com outros movimentos sociais, porque as pessoas trans estão em todos os espaços, nós somos negros, homossexuais, possuímos deficiências, então não tem como desassociar as lutas. E levamos nossas demandas para o Estado, para firmarmos cada vez mais parcerias com ele”, afirmou o militante, que conta também como a atuação dessas ONGs auxiliaram no seu engrandecimento como pessoa, já que foi por meio da representatividade e informações transferidas por elas que ele ganhou muito mais conhecimentos, que o tornarão um cidadão melhor.
O condicionamento da prostituição


Alguém provavelmente já ouviu alguma “piada” sobre travestis. Essas discriminações vestidas de piadas construíram a imagem da travesti que dura ainda hoje. Quando o termo “travesti” é pesquisado na internet, quase a totalidade de resultados que aparecem são relacionados à pornografia. Isso ocorre porque as piadas que foram propagadas por séculos carregam bem mais que “meras brincadeirinhas”, elas denotam o preconceito enraizado culturalmente que não oportuniza uma educação inclusiva e acaba por condicionar pessoas travestis e transexuais, sobretudo do gênero feminino, para trabalhar nas ruas.
“O meio profissional ainda é muito difícil para uma trans. Eu tenho vários cursos, mas para arranjar emprego é realmente complicado. As empresas não investem e não possuímos nenhum tipo de política eficaz que nos inclua nesse meio, e por causa disso ainda não conseguimos tirar aquela imagem marginalizada de que trans é apenas cortar cabelo e se prostituir, eles esquecem que nós estudamos, temos família, uma religião, e que tirarem esse rótulo de nós vamos ser exatamente iguais a qualquer outra pessoa”, Esse é mais um relato da mulher trans Michelly Matorelli, que é estudante e atua como profissional do sexo. Ela é mais uma das inúmeras trans que são empurradas para o ramo da prostituição pelos preconceitos e estigmas sociais.
“Bendita Geni!”

Analisando os casos de agressões e assassinatos contra travestis e transexuais, vamos ver uma recorrência: a brutalidade. A forma cruel como essas pessoas são mortas e a banalidade com que os casos são tratados pela mídia e autoridades traz a reflexão de que aos olhos da maioria da sociedade as pessoas trans não são humanas. Em tempos que se mata apenas por ser diferente, empatia faz toda a diferença, pois ressalta aquilo que a sociedade perde a cada novo relato de assassinato de travestis e transexuais, a sua humanidade.
Beto Paes foi ressaltou que “acredito que o problema não está todo na falta de informação, mas sim na falta de sensibilização para essa realidade, porque muitas vezes as pessoas sabem o que é, elas têm um conhecimento técnico do que se trata, mas não estão sensibilizadas para acolher e aceitar, e isso é muito mais importante que meramente conhecer. Portanto, fazer a superação desses problemas está muito entorno da sensibilização da sociedade, de promover esse debate e leva-lo para as escolas, para a área da segurança pública, saúde, cultura, fazer com que as pessoas entendam que universo é esse e de que maneira elas podem contribuir para a sua superação. Assim, o problema está muito mais além de conhecimento, ele passa por um processo de sensibilização”.












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