Quebrando os tabus da terceira idade
- 5 de mar. de 2018
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Projeto da Universidade Federal do Pará
visa atender os idosos da região

Foi-se o tempo em que os idosos eram vistos como pessoas desocupadas. Foi-se o tempo, também, que a velhice era sinônimo de melancolia e solidão. Quem ainda acredita que a terceira idade está restrita apenas a cadeiras de balanço, agulhas de tricô e partidas de baralho, não conhece a vida do idoso contemporâneo, em especial, os idosos da UNITERCI.
“A UNITERCI trouxe muitos benefícios para minha vida, foi útil tanto fisicamente como mentalmente, porque eu ficava apenas em casa lendo ou sem nada para fazer. Foi quando eu conheci o programa e vim participar. Era tudo o que eu precisava”, declarou Juvenal Ferreira de Oliveira (70), aluno do programa.

Fundada em 1991 pela Faculdade de Serviço Social (FASS), a UNITERCI tem por objetivo informar e atualizar os idosos sobre seus direitos. No programa é discutido questões sociais que fazem parte do cotidiano dessas pessoas, ajudando a compreender o processo de envelhecimento para que eles possam lutar por seus direitos em ter uma velhice digna. “O objetivo do programa é a valorização do idoso. O projeto busca ressignificar a velhice para quebrar com esses paradigmas e preconceitos de que a terceira idade”, explicou Maria Leonice, coordenadora do programa.
A coordenação da UNITERCI explica que a ação busca a inclusão social de pessoas com mais de 55 anos que, por meio de diversos projetos e ações, podem retrabalhar e resignificar o conceito de velhice. “Temos um fenômeno que demonstra a importância deste trabalho: o envelhecimento da população brasileira. É estimado que nos próximos 30 anos o número de idosos irá triplicar no país e é imprescindível viver a longevidade com qualidade de vida e dignidade”, afirma Maria Leonice, coordenadora do programa.
Programa
A UNITERCI funciona com quatro projetos. O primeiro deles é a Atualização Cultural na Terceira Idade, que é a porta de entrada para o programa. Ele funciona duas vezes na semana, de março a dezembro, com palestras, oficinas e atividades práticas sobre diversas temáticas que concernem aos idosos, tais como aspectos da legislação, processo de envelhecimento, nutrição etc.
Após esse ano na Atualização Cultural, os participantes do Programa podem se inscrever nos demais projetos, que são “Terceira Idade na Amazônia: Arte e Cultura”; “Corpo, Movimento e Qualidade de Vida na Terceira Idade”; e “A Terceira Idade em Educação Permanente nas Áreas de Graduação da UFPA”.
Atualização Cultural na Terceira Idade | O projeto funciona de março a dezembro duas vezes na semana e trabalha as dimensões do envelhecimento, o aspecto biológico, o aspecto psicológico e o aspecto sociológico, cada uma dessas dimensões é materializada por meio de temáticas, palestras, oficinas, rodas de conversa e visitas que são demandas dos próprios idosos.
Terceira Idade na Amazônia: Arte e Cultura | O projeto tem como objetivo a redescoberta de novas potencialidades desses idosos. Por meio do projeto, idosos voluntários realizam palestras e oficinas para a confecção de artesanatos e feiras culturais para a exposição e venda desses produtos para ajudar na renda familiar das alunas idosas participantes do projeto.
Corpo, Movimento e Qualidade de Vida na Terceira Idade | Esse projeto trabalha o envelhecimento e a corporeidade, realizado por meio de uma parceria com os cursos de fisioterapia e terapia ocupacional, onde esses estudantes e profissionais realizam atividades de acordo com a particularidade de cada idoso; como o respirar, a postura corporal, se reconhecer como idoso, etc.
Terceira Idade em Educação Permanente nas Áreas de Graduação da UFPA | Trata-se de uma parceria mantida com vários cursos de graduação da UFPA para disponibilizar vagas em algumas disciplinas dos cursos regulares da universidade especificamente para idosos inscritos no Uniterci. Como ouvintes, eles participam de todas as atividades realizadas dentro da sala de aula e o conhecimento adquirido por cada um é multiplicado dentro de suas comunidades. Esta ação também tem como objetivo facilitar as relações intergeracionais e a troca de conhecimentos, fazendo com que os jovens universitários reconheçam o saber do idoso e os valorize a partir da área do conhecimento em que está se formando. Por outro lado, os idosos, em sala de aula, também entram em contato com a cultura e conhecimentos da nova geração.
Envelhecimento com Qualidade de Vida

A importância de estudos sobre o envelhecimento com qualidade de vida na atualidade surge do fato de que a sociedade na qual vivemos não assegura os direitos da maioria dos idosos, apesar da existência de leis destinadas a esse fim como o Estatuto do Idoso e a Política Nacional do Idoso.
O segmento idoso da população brasileira é formado por uma parcela significativa de pessoas em situação de vulnerabilidade social que têm inúmeros problemas relacionados à falta de apoio familiar e social, além de vínculos afetivos fragilizados e muitas vezes inexistentes.
Soma-se a essa realidade a carência de oportunidades, sejam elas providas pelas políticas públicas ou pela sociedade civil, de programas destinados a propiciar momentos de convivência comunitária. A concretização de iniciativas dessa natureza constitui-se como fator favorecedor para que pessoas idosas possam ter uma vida mais saudável ao superar estigmas e preconceitos que afetam as relações humanas.
"Eu vivia em meu mundinho, porque sou difícil de fazer amizade. Participar da UNITERCI me ajudou na socialização e me trouxe de volta a sociedade”, declarou Maria José Gouveia (75), aluna do programa. A aula corpo e movimento, segundo ela, é sua preferida pois ela se sente rejuvenescida após fazer exercícios como alongamento e ginástica. “Aqui todos nós somos iguais, deixamos nossas manias atrás das portas vejo todos como semelhante. Aqui eu me sinto ‘zero bala’, me sinto importante na sociedade”, afirmou.

Dona Maria relata que envelhecer com saúde e conhecimento é essencial para chegar na terceira idade. “Porque uma pessoa que não faz uma atividade física ou não tem conhecimento não tem expectativa de vida. Sou inimiga de dormir, não gosto de televisão, só assisto jornais e gosto de viajar muito. Se eu pudesse vivia dentro de uma navio” afirmou ela.
Para Maria José, o desrespeito ainda permanece em alguns lugares: “Eu sinto o preconceito por meio de algumas pessoas, dentro do ônibus não tem respeito. Aqui mesmo dentro da universidade existem jovens que não dão o lugar no ônibus. Uma vez foi preciso eu pedir o lugar para uma moça”.
Em 2050, um em cada três brasileiros serão idosos. Num período de 8 décadas, a expectativa de vida saltou dos 45 para os 75 anos. O Brasil, que já foi conhecido como um país de jovens, vê agora a sua população envelhecer rapidamente. E esse envelhecimento traz novos desafios, problemas e oportunidades para os governos e a sociedade. Segundo dados do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a expectativa de vida dos brasileiros vem aumentando ano a ano. Também de acordo com o IBGE, dados do Censo Demográfico 2010 apontam que a população idosa no País cresce, enquanto diminui o número de jovens com até 25 anos.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o envelhecimento populacional mundial mostram que, em 2020, o número de pessoas com mais de 65 anos será superior ao número de crianças com menos de cinco anos.












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