No Vadião, Insegurança não paga
- 13 de nov. de 2017
- 5 min de leitura
Assaltos e tráfico de drogas são alguns dos problemas que levaram à suspensão das festas universitárias na UFPA

Eram apenas noites para espairecer a mente, depois de um dia de muito trabalho e estudo. Noites que começariam com o ritmo frenético do Wesley Safadão e, após muitos olhares, doses de caipirinhas, “dois pra lá, dois pra cá” e muito papo, o dia cessaria numa dança agarradinha ao som choroso da cantora paraense Joelma. Porém, essa não era mais a rotina de estudantes que frequentavam o Forró do Vadião em 2016:
“Faz dois anos (2016), no começo do ano mais ou menos. Deixei minha mochila com um Macbook dentro do meu carro. Travei o veículo e acionei o alarme. Porém, quando voltei, meu carro, estava revirado e tinham levado a minha mochila”, afirma Otavio Augusto, Estudante de Engenharia da Computação.
“Pra começar, eu estava com amigos curtindo o forró, como fazíamos todas as festas. Aí, foi um momento que me afastei um pouco dos meus amigos e fui em direção àquelas árvores na beira do rio. Numa distração minha vieram quatro ou cinco meliantes. Pensei que era até meus amigos me sacaneando. Aí então resisti e eles me jogaram no chão. Quando vi que eram meliantes, eu deixei eles levarem tudo”, disse Jonhathan Santos, Estudante de Pedagogia.
Casos como esses se tornaram a nova rotina das festas do Vadião. Foram somados a isso, brigas generalizadas, tráfico de drogas e tentativa de homicídio de um estudante. No final de 2016, em decisão unânime do Conselho Administrativo Superior (Consad) da Universidade Federal do Pará (UFPA), foram suspensos, temporariamente, os forrós universitários.

Derick Castro, estudante de Engenharia Civil membro do Consad, ressalta três pontos fortes para que o Vadião chegasse a situação caótica na qual se encontrava antes da suspensão. “O primeiro problema foi quando a Gestão “Juntos”, do Diretório Central dos Estudantes (DCE), assumiu e começou a brigar com a Segurança da UFPA, em relação ao controle de entrada do Vadião, fazendo com que os seguranças largassem de mão a entrada na UFPA nos dias de festa. Esse problema se uniu com a mudança de empresa terceirizada, que acabou priorizando outras áreas em detrimento do Vadião”, destaca.
Essas duas circunstâncias contribuíram para o terceiro quesito, de acordo com Derick Castro: a profissionalização do tráfico de Drogas durante essas festas. “Os traficantes entravam na universidade, visto que não havia nenhum controle na portaria e no entorno do Vadião. Traziam drogas no boné e isopor. Depois disso eles mapeavam os melhores espaços onde ficariam, normalmente aqui (em frente à aparelhagem), ali próximo às árvores e próximo ao palco. Além disso, havia uma pessoa ali (próximo ao banco) que monitorava se houvesse a chegada da segurança.”
Esses problemas foram se consolidando em 2016 e tiveram como estopim o Forró de Turismo, quando um aluno foi jogado no rio, outro esfaqueado e dois grupos rivais do entorno da Universidade se enfrentaram. A briga generalizada culminou no encerramento da festa nesse dia e influenciou fortemente na decisão do Consad.
Tentativas de melhora
Derick Castro afirma que ele e um grupo de centros acadêmicos já vinham tentando regulamentar os forrós do Vadião sem sucesso. “A conversa começou com os Centros Acadêmicos ligados aos cursos do Instituto de Tecnologia (ITEC). Logo, essa conversa teve adeptos, do Centro Acadêmico de Direito, Geologia, Museologia, Ciências Contábeis, Administração, entre outros. Isso culminou na união de 23 centros acadêmicos que acabaram elegendo uma chapa para a direção do DCE.”
Após isso, de acordo com Derick Castro, iniciou-se o trabalho de criar um regimento para o Vadião. Entre as propostas estavam a de controle dos vendedores bebidas, além de controle de atrações para evitar que as festas atraíssem um grande público.
Os estudantes perceberam que não iriam obter sucesso. Então se uniram novamente para eleger representantes no Consad, para que lá, junto à Administração Superior, fosse possível efetivar um regimento para as festas no interior da Universidade.

Além disso, recheado de disputas, o regimento do Vadião está sendo discutido com uma comissão criada para tal fim. De acordo com Derick Castro, três grupos no Consad defendem vertentes diferentes.
Um deles é o político, visto que alguns membros universitários são ligados a partidos políticos. Segundo o estudante, esse grupo defende a liberação de vendedores, por exemplo. O outro ponto de vista é dos Centros Acadêmicos, que prezam por uma maior segurança das festas do Vadião. Entre as pautas desse movimento está um controle efetivo nos dias das festas e a volta de seguranças. “Melhor que a segurança retornasse a ficar com o carro aqui (no Vadião) durante as festas na Universidade”, afirma. O terceiro movimento é o da Administração Superior, que tem algumas pautas convergentes às dos Centros Acadêmicos, porém não quer despender muitos recursos para resolução do problema.
De acordo com alguns universitários, a insegurança no vadião é algo que já era constatado há muito tempo. “As últimas festas que tiveram no Vadião já estavam em um nível bem ruim; não dava mais mesmo. Ao longo dos anos, eu e meus amigos fomos percebendo a diferença. As pessoas que frequentavam já não eram somente universitários; eram mais pessoas de fora, já estava ficando bem perigoso”, afirma Thayná, Estudante de Medicina.
Além disso, o horário em que as festas acontecem é citado como algo que agrava a insegurança nas festas. “Um dos motivos que me levaram a não frequentar essas festas no Vadião era a falta de segurança. Além de a universidade ser um pouco perigosa nesse horário, que é geralmente muito tarde, voltar de ônibus pra casa é meio complicado lá pela Perimetral, depois das dez horas e tudo mais. Às vezes eu estava disponível para ir à festa, meus amigos me convidavam, mas não aceitava devido a essas questões”, declara Breno, estudante de educação física
Já o Diretor de Segurança Comunitária e Patrimonial, Paulo Sette Câmara Filho, afirmou que o fator agravante para a falta de segurança no espaço do Vadião foi a entrada de pessoas de fora da universidade, principalmente das áreas adjacentes, assim aumentando no número de ocorrências de assaltos e furtos.
Com a entrada de muitas pessoas, as festas passaram a ter um público de aproximadamente dois mil participantes, atraídos pelas grandes aparelhagens, e esse número dificultava a ação dos seguranças. Segundo Paulo Sette, "as grandes aparelhagens que vinham para o Vadião traziam um grande efetivo de pessoa".
A segurança da universidade é patrimonial mas, segundo Paulo, "o estudante faz parte do patrimônio da instituição". Os seguranças localizados nos portões de acesso faziam uma triagem nos dias de festa (quintas e sextas-feiras a partir das 18 horas), com pedido de identificação a quem entrava na universidade a pé, de bicicleta ou em carros. Também era autorizada a entrada de estudantes de outras instituições.
Paulo Sette Câmara explica que se uma pessoa sofrer algo como por exemplo um assalto, ela deve procurar a central de segurança para relatar o incidente e fazer a ocorrência, que vai para um banco de dados para ajudar a posicionar a segurança em pontos de maior risco.
Associação entre festas no Vadião e insegurança

A segurança da UFPA está resumida ao controle do acesso à universidade pelos porteiros, por vigilantes da parte operacional e pelo monitoramento de câmeras. Foram implantadas esse ano algumas medidas para aumentar a segurança no campus de Belém. Uma dessas medidas foi a vigilância motorizada 24 horas.
No entanto, elas não foram suficientes para suprir as necessidades de segurança, considerando a grande extensão do campus e o contingente de agentes insuficiente para suprir a demanda por segurança existente.
Festas com aparelhagens de pequeno porte ou apenas com DJs estão sendo realizadas no estacionamento do Laboratório de Engenharia Civil (LEC). Organizadas por discentes de diversas áreas, têm como base o regulamento da universidade, objetivando arrecadar fundos para as comissões de formatura, além de promover a interação entre os alunos de cursos diferentes.
Segundo um frequentador das festas que não quis se identificar, o número de pessoas é bem menor nesses eventos, principalmente pelo espaço disponível. Incidentes acontecem e a insegurança é pertinente. Em uma enquete realizada num grupo de estudantes da universidade em uma rede social (Facebook), que perguntava a opinião dos alunos em relação à volta das festas no Vadião, a maioria gostaria que as festas voltassem com mais segurança e fossem restritas aos estudantes, visto que muitos deles deixaram de ir a eventos por conta da insegurança.












Comentários