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Paredes que falam

  • 18 de dez. de 2017
  • 6 min de leitura

Grafite na cidade de Belém: um retrato das expressões

artísticas urbanas em Belém

Já nos registros iniciais da humanidade existiam formas de expressões que se aproximavam do grafite como as pinturas rupestres. O homem pré-histórico já utilizava desenhos, gravuras ou símbolos para que tornasse possível o processo comunicacional. Mas foi ao longo dos anos que o grafite se desenvolveu e adquiriu sua identidade. No Brasil o grafite surgiu na década de 60, em meio a ditadura militar, anos em que os militares governaram o Brasil, entre 1964 a 1985.


Naquele período da política Brasileira, a técnica foi utilizada para expressar frases de protesto contra o regime vigente. Percebe-se assim que desde seu surgimento, a prática vem como uma forma de expressão. Motivo que impulsionou o artista Eme (Nome fictício) a grafitar “Por perceber uma necessidade, pelo menos minha, de ter uma voz mais ativa, diante de uma sociedade que ainda vive de uma forma muito primitiva, então isso veio reaparecendo, reacendendo. Foi uma combustão que aconteceu até chegar a esse processo”.


Apesar de ter surgido na década de 60, foi somente nos anos 80 que esse modo de expressão cresceu no Brasil. Inicialmente na cidade de São Paulo, afirmou o Portal Grafite Arte, quando foi encontrado um desenho do personagem homem-morcego pintado em uma das ruas do bairro de Vila Mariana, e que posteriormente atraiu a atenção de artistas, e fez com que a região se tornasse uma galeria ao céu aberto, conhecida como “Beco do Batman”. O surgimento e o crescimento da prática possuem uma característica em comum: a rua. “O grafite vem de uma cultura fortíssima, a cultura da rua. Ela é a expressão máxima visual”, pontua Eme.


Já em Belém a introdução a prática desse gênero se deu através da pichação, é o que afirma o jornal “Resistência”, na edição de agosto de 2013. No final dos anos de 80 e início dos anos 90 começaram a surgir as primeiras pichações pela cidade. Aos poucos originou-se gangues, que passaram a ser rivais. Disputavam demarcação de territórios, marketing coletivo (representação da gangue) e marketing pessoal. Assim arrastões, agressões e violências se uniram a prática de pichar.


No final da década de 90 o conceito da prática foi alterado pelo hip hop, passou então a existe o grafite do hip hop. Agora com um novo significado a pintura, com técnicas de spray e aerografia o grafite foi se integrando como um elemento da cultura do hip hop, e assim as gangues foram perdendo espaços para os coletivos de grafiteiros que passaram a crescer. Eme deseja ter movimento local: “Não ficar consumindo coisas de lugar nenhum ou esperando que os outros venham se apropriar de um espaço que já está aqui para gente. O cenário aqui ainda é muito pacato, recuado”. Concluiu ele.


O que diz a Lei?


Na Lei de crimes ambientais, o ato de pichar, grafitar ou de alguma forma modificar a edificação ou monumento urbano era considerado crime. A penalização poderia ser de até um ano e multa. Já no governo de Dilma Rousseff foi aprovada a lei de número 12.408 de 25 de maio de 2011, que altera a lei citada anteriormente.


A partir dessa nova aprovação, o grafite deixou de ser crime desde que a intenção seja valorizar o patrimônio público ou privado e que haja uma autorização para grafitar. Contudo, na lei permaneceu o termo pichar e conspurcar como ato criminoso, e segue a mesma penalidade, ou seja, de até um ano de pena e multa. Ainda que a lei tenha descriminalizado a ação de grafitar com as condições já citadas, para diversos artistas a prática não precisa de autorização para acontecer para que somente assim seja considerada como arte. É o que analisou o artista Eme: “O grafite é uma arte que ele explode, ele faz, ele acontece, ele não tem que pedir permissão. Como nenhuma arte tem que pedir permissão para acontecer”.


A Cultura Paraense na Grafitagem


Caracterizada como um conjunto de hábitos e costumes adquiridos por meio da experiência desde a infância, a cultura é um símbolo de construção e evolução de uma sociedade. Cada país tem a sua própria cultura, que é influenciada por vários fatores. No Brasil, por se tratar de um povo mestiço, a composição cultural possui uma diversidade em vários aspectos ocasionando diferenças de classes notáveis na sociedade.


Em Belém, a cultura possui seu papel sociocultural, sendo representada nos grafites da cidade de modo satisfatório. Considerado uma das maiores manifestações religiosas do país e patrimônio da cultura paraense, o Círio de Nazaré, envolve a cidade em uma mistura de fé, folclore, cores e sabores, sendo todos esses elementos, representados em forma de grafite em diversas localidades da capital paraense como em Ananindeua (Município de Belém) que possui a representação de Nossa Srª com o menino Jesus e ao seu lado a representação adulta, dando ênfase à cultura paraense já que atrás de toda a expressão artística, a bandeira do estado do Pará é destacada.


Além da representação religiosa, as lendas folclóricas regionais, como a da Iara, lenda representada por uma mulher de um belo corpo, de cabelo negro e no lendário mundo indígena. A Iara até hoje exerce um grande fascínio e maior encantamento nos homens da região amazônica, e por isso é retratada nos muros da cidade fazendo parte do imaginário e da cultura local. Na avenida Assis de Vasconcelos a representando o canto da sereia.


A representatividade indígena, assim como a fauna e a flora amazônica, é algo muito recorrente nos muros de Belém. Os 32 povos indígenas localizados no território paraense, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), são representantes de uma sociedade que ajudam a entender a Amazônia como um todo, já que possuem um conceito étnico e cultural diversificado. E, por esse motivo, os grafiteiros registram nos muros da cidade a figura indígena como é o caso da Universidade Federal do Pará, que possui a personificação do índio, mais de uma vez, em seus institutos.


Além da representatividade paraense, os grafites possuem também um sincretismo cultural de outras localidades. Em Belém é possível vivenciar grafites de cantores internacionais como Michael Jackson, norte americano, representado em uma das principais avenidas da cidade, Avenida Nª Sr. de Nazaré, assim como, cantores da região Paraense como Mestre Verequete, reconhecido como a maior expressão artística do Carimbó do Pará. A representação de Augusto Gomes Rodrigues em forma de grafite foi elaborada pelas mãos do artista Almir Rogério, o painel está localizado no bairro da Cidade Velha juntamente com a simbologia de um negro, em homenagem aos 400 anos de Belém.


O ato de grafitar tem o papel importante e pode resultar em transformações na vida de grafiteiros. Em 2016, por meio de uma matéria do Jornal Liberal do Estado do Pará, o grafiteiro Almir Rogério componente do grupo Cosp Tinta (um dos mais representam o grafite paraense), afirmou que a arte de grafitar influenciou em sua reinserção social: “O grafite foi um modo de me reinserir na sociedade. Durante a minha juventude, eu cometi alguns atos inconsequentes”. Relembrou o artista.


Grafite x Pichação

Somente no Brasil é utilizado o termo pichação para diferencia-la do grafite. Porém, tanto a pichação quanto o grafite nasceram basicamente de riscos e traços feitos na parede, por uma lata de tinta spray. No entanto, com o passar dos anos e o advento de novas formas comunicacionais o grafite distanciou-se do parâmetro de riscos e traços assumindo formas, cores e imagens diferenciadas, podendo ser facilmente interpretado enquanto que a pichação permaneceu sendo compreendida somente por quem a faz. Em 1998 com a publicação do artigo 65 da lei de crimes ambientais, que autorizou e reconheceu o grafite como manifestação artística, este se tornou aceito legalmente e admirado pela sociedade. Devido sua visualidade gráfica, o grafite foi apropriado pelo contexto contemporâneo e entra na moda, na publicidade e é representado até mesmo em abertura de novelas. Enquanto o grafite se tornou legitimado a pichação continuou sendo criticada, recusada e vista como vandalismo.


Para Rodrigo dos Santos Lima, 24, que realiza esporadicamente trabalhos com o grafite as duas artes não possuem diferenças entre si “De forma técnica, não existe diferença entre grafite e pichação. O que os difere é a legalização de um e a proibição do outro. Se formos analisar é praticamente a mesma coisa, uma letra e um spray”, afirmou o jovem. O professor, pesquisador e diretor do Instituto de Ciências da Artes (ICA) da Universidade Federal do Pará (UFPA) Luizan Pinheiro da Costa, o grafite e a pichação também não possuem diferenças, pois ambos são expressões artísticas da rua que propõem debates através da crítica social. O principal marcador de diferenciação entre eles é a proibição do picho e a permissão do Grafite assegurada por lei.


 
 
 

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