O B Invisível
- 8 de jan. de 2018
- 10 min de leitura
Entenda o que é a bissexualidade e o porquê de ser discriminada até na comunidade LGBT

"Pra ser bem sincera eu me questionava sobre a possibilidade de eu ser bissexual desde a pré-adolescência. Isso porque eu conseguia perceber que meu comportamento, minhas opiniões, o meu 'ser’ era diferente das meninas que eu convivia", afirmou Bruna Oliveira, de 18 anos. "Não que o fato de você ser uma garota que não goste de roupas supostamente femininas faça de você lésbica ou bi, mas é algo que você sente. É tão natural quanto saber que é heterossexual."
Por ignorância própria e medo de ser menosprezada pelos pais, que são muito religiosos, Bruna oprimiu sua sexualidade por vários anos. "Eu cresci ouvindo que uma das maiores tristezas para um pai e uma mãe, era ver o seu filho ou filha ser gay, então eu meio que reprimi a minha própria orientação sexual durante toda a vida. Apenas após ter conhecido uma amiga, eu percebi que oprimir os meus sentimentos iria me tornar infeliz, e não iria ser mais eu mesma", ela disse.
O conceito de bissexual como alguém que sente atração sexual e afetiva por pessoas de ambos os sexos ganhou força apenas na década de 70, nos Estados Unidos, após repercussões das manifestações dos homossexuais em prol da retirada da homossexualidade da lista de doenças do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM). Até 1970, a bissexualidade era vista como uma combinação de masculinidade e feminilidade psicológica de um único indivíduo. A questão do desejo sexual era frequentemente menosprezada.
Só então, a partir dos movimentos ativistas da comunidade gay, que a bissexualidade tornou-se conhecida. No entanto, apesar do conceito existir, a sociedade em geral ainda desconhece o que significa ser bissexual e isso os invisibiliza. Por conta da falta de informações, eles são vítimas de várias formas de preconceito, inclusive dentro da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis).

Logo, assim como Bruna Oliveira, diversos bissexuais se encontram na mesma situação hoje. O medo, o preconceito e a falta de conhecimento da sociedade faz com que se assumir e viver sendo bissexual seja preocupante e impede que eles tenham os direitos respeitados e não se sintam representados nos ambientes em que vivem e nos grandes veículos midiáticos.
Afinal, quem são?
É importante ressaltar que ainda hoje existem poucos estudos sobre a bissexualidade e, a cada momento, surgem novos conceitos e significados. Há muitas discussões sobre como definir essas pessoas e, ainda, sobre se há necessidade de um rótulo. No geral, o bissexual é reconhecido como um ser que gosta de homens e mulheres. Não é errado pensar dessa forma, contudo houve uma redefinição do que é bissexualidade e, atualmente, a resposta mais adequada para isso seria uma pessoa que é atraída por mais de um gênero.

“Inicialmente, eu acreditava que era gay. Aí depois de um tempo eu fui percebendo que não gostava só de homens, eu tinha uma atração muito forte por mulheres também”, conta Cristian Kallahan, estudante universitário. “Querendo ou não, é muito difícil a gente aceitar que gosta dos dois. A gente sempre tem aquela ideia de ‘ou você vai gostar de homem ou você vai gostar de mulher’ e se torna um processo complicado. É muito difícil ter que aceitar a si mesmo.”
De acordo com o site ConversaCult, a bissexualidade é uma orientação sexual que se difere das monossexualidades como homossexualidade e heterossexualismo, onde há apenas relacionamento com um gênero restrito. Além disso, ela não pode ser confundida com a panssexualidade (atração por quaisquer gêneros) e polissexualidade (atração por vários gêneros, mas não todos). O bissexual sente atração por ambos os gêneros e não é um desvio comportamental.
Victor Carvalho é um estudante de psicologia de 18 anos. Ele afirma que só teve conhecimento do termo bissexual aos 15 anos. O estudante declarou que sempre soube que havia algo “diferente” consigo, que ele não gostava apenas de meninas, mas a estranheza que aquilo lhe causava fazia com que ele lutasse contra esses sentimentos. Ele afirma que nunca tentou investir em um relação com um outro garoto antes de se assumir bissexual, mas que a atração estava presente em seus pensamentos. Era algo que fazia parte de sua personalidade, da sua essência. “Eu sentia atração, tinha curiosidade mas nunca dei força para isso. Era sempre uma coisa que eu guardava, que eu lutava contra”, disse Victor.
Segundo Joe Kort, escritor e terapeuta sexual que tem livros publicados na área da sexualidade com ênfase no gênero masculino, muitos homens não se declaram como bissexuais por manterem relacionamentos com alguém do sexo oposto. Ou seja, por estarem inseridos no padrão heteronormativo de casal, estes homens não expressam sua sexualidade verdadeira, contribuindo para o apagamento dos bissexuais. Joe explica que alguns dos fatores que contribuem para esse ocultamento dos relacionamentos com pessoas do mesmo sexo é o medo de ter a reputação “manchada” e o receio de perder relacionamentos.
É gay ou hétero?
Cristian Kallahan relembra que já perdeu dois relacionamentos devido aos estigmas contra a comunidade bi. “O primeiro foi com uma mulher. Chegou um momento em que eu não podia mais esconder uma parte tão importante da minha vida pra ela e contei que era bissexual, que já havia me relacionado com homens, e aí ela pirou. Disse que eu era um pervertido e que não queria ficar com alguém que já tinha ficado com homens. Na outra vez, contei pro menino e ele ficou nervoso, disse que a chance dele ser traído era duas vezes maior. Ele disse que não tinha problemas com isso, mas que não queria mais ”, afirmou Cris, aos risos.
Promiscuidade, indecisão, infidelidade e confusão são sempre as primeiras palavras dirigidas a alguém bissexual. Nota-se que esses preconceitos vêm sido construídos historicamente, durante séculos, a partir da construção da norma monossexual. Este conceito que ainda causa estranhamento em várias pessoas, é um dos principais fatores para que haja o reforço de estigmas contra os bissexuais, por se tratar de algo mais natural e comum, não precisando ser catalogada e usada como artigo identitário. Logo, o heterossexualismo e o homossexualismo se encaixam nos padrões monossexuais por não mesclarem entre os dois sexos.
Usaremos uma personagem fictícia chamada Ellen para exemplificar. Caso Ellen seja lésbica, ela sentirá atração apenas por mulheres. Se ela for hétero, sentirá atração só por homens. Esse é o padrão monossexual, encontrado estruturalmente na sociedade contemporânea. Se Ellen for bissexual e mantiver relações com homens e mulheres (que não são simultâneas), foge ao padrão e é rotulada como uma pessoa imoral ou indecente. Ellen, portanto, é vista como alguém infiel e se torna invisível, até mesmo dentro da comunidade LGBT, pois mesmo as pessoas deste grupo podem reforçar essas normas.
De acordo com a jovem Ravena Silva, de 18 anos, é muito comum que as pessoas pensem em bissexuais e os associem à prática sexual ménage à trois, onde ocorrem relações sexuais e afetivas com três pessoas. “As pessoas pensam que a gente vai topar fazer algo assim e isso é patético”, ela enfatiza. “A sociedade ainda vê tudo no preto e no branco, ou você é lésbica, gay ou hétero. Não há espaço para alguém que consegue gostar dos dois com a mesma intensidade. E sempre perguntam, mesmo dentro da comunidade LGBT, de qual nós gostamos mais. Nós temos nossas preferências pessoais, assim como qualquer pessoa, mas não fazemos uma distinção dos sexos.”

“Confesso que no início do nosso relacionamento, eu demorei a entender que a Ravena não iria se interessar por outra pessoa. É algo que, infelizmente, ainda está bem enraizado na gente”, disse a namorada de Ravena, Marise Costa. Além do preconceito ser frequente em relação aos estereótipos de libertinagem, esses paradigmas podem ser destacados por meio da linguagem não inclusiva como: casal gay ou lésbico, ainda que um dos indivíduos seja bissexual, rotular como gay, lésbica ou hétero uma pessoa que se declara bissexual ou determinar a orientação sexual da pessoa considerando o sexo do companheiro ou companheira. Ravena e Marise, portanto, seguindo os padrões gerais, seriam rotuladas como um casal lésbico. O fato de Ravena ser bissexual é totalmente invisibilizado.
A heteronormatividade, termo usado para descrever situações nas quais orientações sexuais diferentes da heterossexual são ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas, também é um determinante para a propagação da bifobia velada e contribui para o apagamento dos bissexuais. “Eu sou casado com uma mulher, que também é bissexual. Então, a heteronormatividade me aceita. E aceita a gente como um casal. Temos passabilidade hétero”, afirma Matheus Venancio. Ele e sua esposa são bissexuais, no entanto são enquadrados como um casal hétero. “Há muito o que evoluir pra entender o que é a bissexualidade e outras sexualidades não-monossexuais. É puramente ignorância. Antes de me entender, também tinha essa mesma ignorância”, ele afirma.
Representatividade
A GLAAD, organização não governamental estadunidense (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation), luta para reconhecer e homenagear as representações justas e inclusivas da comunidade LGBT e combater problemas nos veículos midiáticos que possam afetar a vida dessas pessoas. Inclusive, ela ainda promove uma premiação anual para as empresas, companhias e personalidades que tenham ajudado na causa LGBT: o GLAAD Media Awards.

Segundo o relatório GLAAD no ano de 2016, o grupo bissexual representa apenas 20% dos 4% de personagens LGBT das produções seriadas americanas. Alguns personagens de destaque atualmente são Oberyn Martell e Daenerys Targaryen, da série Game of Thrones, e também Brittany de Glee, Annalise Keating de How to Get Away with Murder, Callie Torres de Grey’s Anatomy e Piper Chapman de Orange is the New Black.

As representações dos bissexuais através desses personagens, entretanto, acabam reforçando os estereótipos de indecisão e futilidade como Oberyn Martell, Brittany, Callie Torres e Piper Chapman. No caso do personagem Oberyn, sua sexualidade é ocultada, pois é identificado na trama como alguém que “não escolhe lados” e que apenas quer saciar seu apetite sexual. Tal fato coopera para que a característica de renegação dos bissexuais e toda a sua problemática seja transformada na personalização da masculinidade aceitável, na qual o homem faz o que quer para se satisfazer.
Piper Chapman e Callie Torres, por exemplo, são retratadas como mulheres indecisas. Poucos conseguem entender que a complexidade dos relacionamentos destas duas mulheres se dá por conta da profundidade dos enredos de suas histórias, e não por indecisão ou ignorância da orientação sexual. Brittany, na série Glee, também foi retratada como um ser promíscuo e infiel à seu par, Santana. Na quinta temporada da série, Santana fala sobre Brittany de maneira bifóbica e diz que não precisaria mais se preocupar com uma namorada correndo atrás de homens.
Esses tipos de comentários em séries e meios de comunicação contribuem para que a comunidade lésbica evite se relacionar com bissexuais, menospreze as vivências e sentimentos dessas pessoas e ainda as discriminam por se relacionarem com homens. Atualmente, no Brasil, a novela teen Malhação - Viva a Diferença traz como uma das protagonistas a jovem Lica, interpretada pela atriz Manoela Aliperti, e recentemente começou a falar sobre a sexualidade da garota. Após se relacionar com garotos de sua escola, Lica se descobriu apaixonada por uma colega de classe chamada Samantha e, desde então, a divulgação do novo casal é sempre dado como “casal lésbico”. Apesar de Lica e Samantha já terem se relacionado com outros homens, a bissexualidade nem é citada.
“Nas campanhas publicitárias, principalmente no dia dos namorados, essa invisibilidade dos bissexuais é muito forte. Eles nunca tentam representar a comunidade bi de maneira nenhuma”, comenta Ravena Silva. “Eu não me sinto representada em nenhum lugar. Mesmo nas séries, ainda é pouco e distorcido.”
Para Bruna Marcelly, o caráter comercial de representatividade dos LGBT’s nos meios de comunicação é visível. “ Ao querer se mostrar ativista do Movimento LGBT, a mídia encontrou uma forma de ganhar força e arrecadar consumo e riqueza. As redes de televisão, as redes sociais, as redes de rádio, em sua grande maioria, não existem para desconstruir preconceitos, para erguer a sociedade LGBT e nos tornar tão prestigiados quanto a heterossexualidade, mas sim para garantir a sua própria sobrevivência no mercado midiático.”
Fortes e Empoderados
A página no Facebook “Bissexuais Existem” existe desde 12 de fevereiro de 2016. Criada por Matheus Venancio, o nome da página refere-se a um vídeo de mesmo nome no YouTube da drag queen Lorelay Fox. Matheus conta que desde o dia em que se descobriu bissexual, pesquisou muito sobre a bissexualidade e principalmente sobre bifobia. “As matérias, ao mesmo tempo que me ajudaram muito a me entender, também me assustaram demais, por conta da quantidade de bifobia que as pessoas reproduziam, mesmo sem saber. Daí que surgiu a ideia e a necessidade de me posicionar sobre isso, trazer informação e combater a bifobia publicamente no Facebook”, ele explica.
Matheus tenta sempre colocar humor nas publicações, porque os próprios curtidores se sentem mais confortáveis de se expressar dessa forma. O uso de uma linguagem mais atual e leve faz com que as publicações sejam mais aceitas e divulgadas. “Vejo muita gente mandando mensagens dizendo ‘só não compartilho porque não sou assumido’ quando é um assunto onde só traz a desconstrução sem o meme. Já com o humor, fica mais confortável de se expor, e querendo ou não, o alcance de visualizações é bem maior já que a internet toda é feita de meme hoje”, ele afirma.
A “Bissexuais Existem”, porém, é uma das poucas iniciativas direcionadas aos bissexuais nas redes sociais. Dos entrevistados para esta matéria, poucos tinham conhecimento de páginas que ajudavam no fortalecimento da comunidade bissexual, especialmente no Pará e na região Amazônica. Alguns conheciam páginas a nível nacional, como a “Bissexuais Existem”, todavia, ações com recortes que atendam necessidades das regiões do Brasil individualmente não ganham tanta visibilidade.
O “Movimento LGBT do Pará” é uma Associação de ONGs que busca dar voz a comunidade LGBT no Pará, não só na capital mas também nos municípios do interior. O Movimento está presente em 19 municípios do estado e seu foco maior é o respeito aos direitos humanos. A iniciativa é extremamente significativa pois busca compreender as particularidades dos municípios, sem tentar encaixar a comunidade LGBT em moldes ou padrões das capitais.
O que torna o Movimento LGBT do Pará ainda mais inclusivo e representativo é a presença de um Colegiado na coordenação, e não apenas uma única pessoa. O Colegiado é composto por 5 coordenadores, cada um representando um dos segmentos da comunidade LGBT, o mandato dura 4 anos e a eleição é realizada por meio de uma Assembléia Ordinária. O atual coordenador de políticas para bissexuais é Rafael Ventimiglia, estudante de psicologia da UFPA.

Segundo Rafael, é essencial que cada segmento seja liderado por alguém que saiba das necessidades dessas pessoas. Ele comenta que “dar vozes aos bissexuais, protegê-los e contribuir para a desconstrução dos estereótipos sobre eles é um dos objetivos principais do movimento.”
Outra iniciativa é o coletivo nacional Juntos!, com uma subdivisão paraense, que tem como finalidade auxiliar pessoas que se encontram principalmente em grupos minoritários. Por meio de palestras, rodas de conversa e ações afirmativas de empoderamento, o coletivo busca fortalecer as pessoas e conscientizá-las através da educação.
“Nós nos reunimos e fazemos nossas formações, que são diálogos e conversas sobre algum tema em específico. Vemos filmes, lemos e debatemos sobre diversos assuntos pra que a gente possa se afirmar e aprender. É uma forma didática de aprender”, afirma Ingrid Louzeiro, graduanda em pedagogia e ativista do coletivo. Ela também é bissexual e faz reflexões nas atividades do coletivo sobre questões de sexualidade e gênero.

Ingrid tem um olhar positivo sobre o futuro, quanto à representatividade e visibilidade bissexual. Para ela, por meio da educação tudo pode ser alcançado. “A educação é a única coisa que pode nos preparar, porque a sociedade em si ainda não está pronta para nos receber”, diz. Ela ainda reforça que as atitudes e palavras das pessoas podem fazer a diferença para que preconceitos não sejam reforçados. “Não diga nada sem pensar, porque isso pode machucar alguém. Por isso a importância de sempre estar atento e se educar.”












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