CineClubes: eles descolonizam o olhar do público
- 12 de fev. de 2018
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Indo na contramão da programação comercial, os cineclubes promovem uma reflexão sobre as produções audiovisuais no Estado

Ir ao cinema pode ser muito mais do que ver um filme. Primeiro descobre-se o filme. Então você conhece o enredo da história. Quando as luzes se acendem e a introspecção é quebrada, vem a experiência de reflexão sobre o que foi visto. Essas possibilidades de interpretações trazem o debate. Durante esse momento de frenesi, outro espectador organiza tudo que é levantado pelo público exercendo o papel de moderador. Após a experiência fluir, se encerra o debate de mais uma sessão de cineclube e já se aguarda a próxima. Essa é maneira dos cineclubes apresentarem aos espectadores um outro olhar sobre o cinema, diferindo do modo convencional da exibição pela exibição. Organizado por intelectuais que gostam da sétima arte, os cineclubes apresentam uma programação diferente daquela exibidas pelas grandes salas. Afinal, a motivação de construir esses espaços faz parte da criação de um novo circuito cinematográfico para cidade de Belém.
Para os cineclubistas, a programação comercial é limitada e não dá conta da rica e diversificada produção audiovisual. Em Belém, essa atividade foi inaugurada em 1956 por Orlando Teixeira Neto, junto com Benedito Nunes e Francisco Paulo Mendes, fundadores da Universidade de Filosofia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Sem fins lucrativos, essas organizações têm como concepção a democracia e o compromisso cultural e ético com a sociedade. Para os cineclubistas os filmes são obras de arte.
Surgimento
Na época dos rolos de filme, fazer cinema e cineclube tinha um valor muito mais alto. Segundo Luzia Álvares, professora da UFPA e coordenadora do Grupo de Estudos Eneida de Moraes (GEPEM), e uma das fundadoras da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA), além dos projetores caros, os filmes tinham que ser exportados para Belém. “Os filmes extras, aqueles que com certeza não seriam exibidos pelo circuito comercial e que nós achávamos muito bons, nós exportamos de Recife, Rio de Janeiro. E a UFPA tinha um recurso específico para essa atividade e durante muito tempo foi o que garantiu o aluguel e o frete dos filmes”, contou.
Além das dificuldades financeiras para exibição dos filmes, de acordo com a professora Luzia, era necessário que a película viesse acompanhada de uma licença para exposição. “Se aquele filme não estivesse na agenda da Polícia Federal ele era confiscado imediatamente”, relatou.
Para a professora Luzia, que já foi colunista do jornal O Liberal, as dificuldades de construir um cineclube não os impediram de dar continuidade às atividades. O prazer de pensar e debater criticamente o cinema moveu, e ainda move, quem constrói esses espaços. Hoje ela coordena o cineclube do GEPEM, Cine Gênero, que tem como objetivo debater a imagem das mulheres na experiência cinematográfica.
Pedro Veriano, crítico de cinema e integrante da ACCPA conta em entrevista para Raissa Lennon, jornalista, sobre como Orlando Teixeira criava o cineclubismo em Belém, “Ele fazia as experiências dos filmes em minha casa, que eu chamei de ‘Os bandeirantes’, que era na garagem. Passava qualquer tipo de filme lá, desde os bregões mexicanos até os clássicos.”
O crítico vê Orlando como um herói do cinema, conta que ele não tinha equipamentos para projetar os filmes, mas os levava para transmitir no auditório da Sociedade Artística e Internacional (SAI), que hoje é a Academia Paraense de Letras.”Orlando não tinha equipamento para projetar, ele alugava projetores, ‘velhíssimos’, que davam prego, e por isso, tinha sessões interrompidas, não terminadas”, afirma.
Problemas Atuais
Belém é pioneira em cineclubes e uma das capitais em que essa prática ainda é mais presente. O crítico Tiago Antunes, integrante da Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC) e curador do CineCCBEU, afirma que o marasmo cultural em que o país se encontra e a facilidade de encontrar filmes virtualmente em plataformas como Netflix e Hulu diminuíram o alcance de público dos cineclubes. Para ele, a experiência cinematográfica se tornou solitária e doméstica.
Ele afirma que poucas pessoas procuram o espaço presencial do cinema e a experiência do encontro e debate que esse possibilita. O espectador preferiu se acomodar em frente a telas e a debates virtuais que lhe proporcionam mais conforto e segurança. “A gente está numa cidade extremamente violenta, e algumas sessões acabam após as 21h. As pessoas ficam inibidas de vir por causa do perigo, por causa da violência”.
Além disso, a visibilidade dos cineclubes na imprensa e na cidade de Belém diminuiu. Segundo Tiago, a divulgação virtual tem sido a saída para alcançar um maior público, mas as sessões têm metade do público que já tiveram anteriormente, algumas pessoas já são fiéis frequentadoras e ajudam o cineclube a continuar existindo. “A gente percebe que as sessões da APJCC e da ACCPA tem um público de idades acima de 60 anos, que é o público que respirou o início dos cineclubes.”
Para ele é necessário uma renovação de público cineclubista, uma reconstrução do gosto pelo cinema. E para quem gosta de cinema, buscar o debate. Pedro diz que é possível fazer cineclubes na escola, na comunidade em que você mora, buscar parcerias, ou até mesmo reunir os amigos e conversar sobre o filme, isso não deixa de ser uma atividade cineclubista.
Circuito Aberto
Os cineclubes continuam vivos e transmitindo filmes que não são encontrados no cinema comercial. É possível encontrar todo os tipos de filmes: mostras internacionais, obras antigas, obras atuais e filmes que fogem da lógica hollywoodiana e alguns que não são encontrados para download.
O circuito não comercial de cinema em Belém é praticamente diário e, em sua grande maioria, gratuito. A atividade cineclubista funciona mensalmente em vários pontos da cidade. Dentre os cinemas, podemos citar o Cine Olympia, Cine Líbero Luxardo, CineCCBEU, Cine Alexandrino Moreira, CineClube UEPA Prof. Valmir Bispo.












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